Eu tinha 31 anos, um cargo com um título bonito em uma empresa sólida, e uma pergunta que ecoava na minha cabeça todo domingo à noite, como um sinal de mau agouro: “É só isso?”
Não era ingratidão. Eu sabia que era privilegiado. Mas era uma sensação física, um peso no peito. Uma certeza de que estava no lugar errado, interpretando um personagem que não era meu. O pior? Eu não fazia ideia de quem era o personagem original.
Um dia, num workshop, o facilitador soltou uma frase que me atingiu como um raio: “O mapa não é o território.” Ele explicou: o “mapa” era aquela narrativa pronta que eu carregava — a de que, aos 30, você precisa estar estabilizado, crescendo na carreira, agradecido pelo que conquistou. O “território” era a minha realidade interna, bagunçada e cheia de dúvidas.
Aceitar que meu mapa estava desatualizado foi o primeiro passo. O segundo foi ter coragem de explorar o território desconhecido de mim mesmo. E essa exploração, que durou meses, me levou a um lugar que hoje chamo de casa. Se você também sente que está navegando com um guia ultrapassado, venha comigo. Essa jornada não é sobre virar a mesa de uma vez; é sobre aprender a ler a bússola interna que você talvez tenha esquecido como usar.
O Luto do Caminho “Certo”: Quando a Escada Está Encostada na Parede Errada
A primeira coisa que precisei fazer foi um luto. Luto pela expectativa linear: faculdade > estágio > emprego > promoção > aposentadoria feliz. Luto pela ideia de que mudar era um sinal de fracasso ou instabilidade.
Passei um fim de semana anotando, sem filtro, tudo o que sentia no meu trabalho atual. Não era sobre tarefas, era sobre sensações:
- “Sinto que meu cérebro está em marcha lenta.”
- “Passo mais tempo fingindo estar ocupado do que fazendo algo significativo.”
- “Admiro meu colega que é apaixonado pelo que faz, e sinto uma inveja que dói.”
- “Meu trabalho não resolve problema nenhum no mundo, só move dinheiro de um lugar para outro.”
Esse exercício doía, mas era necessário. Era a prova concreta de que meu desconforto não era “frescura”. Era um sistema de alerta legítimo. Seu corpo e sua mente sabem quando você está fora do lugar. Aprender a ouvi-los é a skill mais importante dessa jornada.
Os Três Pilares da Investigação Pessoal (O “Kit do Explorador”)
Sem autoajuda mágica. O que funcionou foi uma investigação paciente, baseada em três pilares. Você vai precisar de um caderno (o velho e bom) para isso.
Pilar 1: O Que Te Energiza vs. O Que Te Drena (O Rastreador de Energia)
Por uma semana, carregue seu caderno e anote, em tópicos rápidos:
- Atividades que te ENCHEM de energia: Mesmo que não tenham a ver com trabalho. Ex: “Resolver aquele problema de Excel pra minha mãe”, “Explicar um conceito complexo pro estagiário”, “Organizar a planilha de viagem em família”.
- Atividades que te ESGOTAM: Ex: “Reunião de alinhamento de 2h”, “Preencher relatório burocrático”, “Falar em público sobre um tema que não domino”.
A Revelação: Muitas vezes, encontramos pistas no que fazemos de graça e com prazer. Para mim, “explicar coisas” e “organizar informações” apareciam sempre no lado da energia. Era um sinal claro.
Pilar 2: Reconectando-se com a Criança de 8 Anos (O Exercício Mais Poderoso)
Uma terapeuta me fez esta pergunta: “O que você amava fazer quando tinha 8 anos, antes do mundo te dizer o que era ‘útil’ ou ‘estranho’?”
Feche os olhos. Volte lá. Para mim, era passar horas desenhando mapas de reinos imaginários, criando histórias para meus bonecos e construindo fortes com cadeiras e lençóis.
O que isso revela?
- Mapas e reinos -> Fascínio por sistemas, organização de mundos (possível link com design de experiência, arquitetura de informação, gestão de projetos).
- Criar histórias -> Amor por narrativas, comunicação, dar sentido às coisas.
- Construir fortes -> Prazer em criar espaços seguros e funcionais.
Sua criança interior guarda a chave da sua verdadeira curiosidade, não contaminada pelo mercado. Anote o que vier.
Pilar 3: A Entrevista da “Vida Paralela”
Aqui saímos da nossa cabeça e entramos no mundo real. A tarefa: conversar com 3 pessoas que têm trabalhos que, de longe, te despertam curiosidade.
Não precisa ser para “conseguir uma vaga”. É uma entrevista de curiosidade. Pergunte:
- “Qual a parte do seu dia que mais te energiza?”
- “Qual é o maior mal-entendido sobre o que você faz?”
- “Que habilidade inesperada você mais usa?”
- “Como foi seu caminho até aqui? Foi linear?”
Essas conversas fazem mágica. Elas desmistificam carreiras e mostram caminhos possíveis e cheios de curvas, muito diferentes do mapa reto que nos venderam.
Costurando as Pistas: Do Caos ao Primeiro Rascunho
Com as anotações dos três pilares na minha frente, fiz uma tempestade de ideias. No centro de uma folha, escrevi: “O Que Poderia Ser?”.
E comecei a conectar pontos:
- Energia em “explicar” + criança que “criava histórias” + admiração por quem “ensina online” -> Hmm, talvez criação de conteúdo educativo? Cursos?
- Energia em “organizar informações” + criança que “fazia mapas” + curiosidade sobre “design de sistemas” -> Talvez UX Research, arquitetura de informação?
- Prazer em “construir espaços” + conversa com uma consultora de organização -> Será que há algo em organizar espaços físicos ou fluxos de trabalho?
Repare: nenhuma dessas é uma resposta pronta. São hipóteses. E hipóteses são testáveis.
A Estratégia do Projeto-Beta: Teste Sem se Demitir
Esse foi o pulo do gato. Em vez de pensar: “Preciso mudar de carreira AGORA” (o que paralisa), pensei: “Vou criar um Projeto-Beta para testar essa hipótese.”
Escolhi a primeira pista: criação de conteúdo educativo.
- Objetivo do Beta: Criar 3 posts no LinkedIn explicando conceitos da minha área de forma simples e visual.
- Investimento: 2 horas por semana, por 1 mês.
- Como medir o sucesso: Não por likes, mas por sensação. Eu me senti energizado fazendo? As pessoas fizeram perguntas interessantes? Aprendi algo novo no processo?
O resultado do primeiro Beta foi claro: eu amava o processo de pesquisa e didática, mas odiava a performática do LinkedIn. Informação valiosa! O próximo Beta poderia ser um pequeno e-book ou uma aula voluntária.
Essa abordagem tira o peso das costas. Você não está “mudando de carreira”. Você está fazendo experimentos. Alguns vão falhar. Outros vão acender uma chama. E é essa chama que vai te guiar.
O Território é Seu. O Mapa, Você Redesenha.
Hoje, alguns anos depois daquela crise dos 31, não estou em uma carreira radicalmente diferente. Estou em uma evolução dela. Usei as pistas para migrar dentro do meu próprio campo para uma área mais ligada à educação corporativa e design de aprendizagem. Encontrei meu ponto de intersecção entre utilidade, curiosidade e mercado.
Aos 30, 40, 50, nós não somos uma tábula rasa. Somos arquitetos com muitos materiais já em mãos: nossa experiência, nossas habilidades transferíveis, nosso autoconhecimento em construção.
A pergunta deixa de ser “O que eu quero ser quando crescer?” — que implica um destino fixo — e se torna “Que tipo de problemas eu gostaria de usar minhas habilidades para resolver, e em que contexto?”.
Essa pergunta é poderosa. Ela te coloca no comando. O território da sua vida é vasto, complexo e cheio de becos surpreendentes. Jogue fora o mapa velho. Pegue seu caderno, sua coragem e comece a traçar, a lápis, o seu próprio.
Qual será o seu primeiro pequeno experimento?